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Importância dos agentes luteolíticos em programas de reprodução

Diversos são os hormônios envolvidos no controle do ciclo estral bovino. Entretanto, nesse artigo iremos nos ater a prostaglandina (PGF) e as suas diferentes moléculas disponíveis na prática veterinária. Para isso, devemos entender primeiramente  como esse hormônio tão importante atua.

O corpo lúteo (CL) é a estrutura formada no ovário após a ovulação, e sua função é produzir a progesterona (P4), responsável pela manutenção da gestação. Já, a prostaglandina é produzida no endométrio e está envolvida com a regressão do CL. Assim, quando esta molécula atua, o CL regride e consequentemente ocorre queda nos níveis plasmáticos de P4. Esse fato estimula a pulsatilidade do hormônio luteinizante (LH), o que promove o crescimento final do folículo dominante/ovulatório podendo culminar em uma ovulação. Devido à função luteolítica da PGF, a mesma é amplamente utilizada em programas reprodutivos, seja como indutor de cio para inseminação artificial (IA) convencional, seja nos protocolos para inseminação artificial em tempo fixo (IATF).

A prostaglandina natural é um hormônio muito instável e de difícil produção. Assim, ao longo dos anos diversos trabalhos foram feitos no intuito de desenvolver drogas que tivessem efeitos similares a mesma. De maneira geral, existem no mercado alguns análogos sintéticos de PGF entre eles, o dinoprost trometamina e o cloprostenol sódico, que é a droga mais utilizada mundialmente para esse fim. A diferença principal dessas moléculas, é que o cloprostenol possui um anel de cloro benzílico em sua molécula, o que reduz a ação enzimática responsável pela degradação, tornando-o mais resistente ao metabolismo endógeno quando comparado ao dinoprost. Essa característica faz com que o cloprostenol sódico tenha meia vida plasmática 23 vezes maior que o dinoprost (aproximadamente 3 horas vs 8 minutos, respectivamente; MACCRACKEN et al.,  1999).

Esse diferencial entre os fármacos pode estar relacionado ao tempo de ação e intervalo entre a administração da prostaglandina e a luteólise. Martins et al. (2011), realizaram um trabalho para avaliar a concentração plasmática de progesterona de vacas de leite tratadas com dinoprost trometamina e cloprostenol sódico (Figura 1). Nesse estudo, os animais tratados com cloprostenol apresentaram um efeito luteolítico mais rápido, apresentando concentração de P4 circulante mais baixa que as fêmeas tratadas com dinoprost nas primeiras 12 horas após a administração dos hormônios. Nesse sentido, a rápida queda nos níveis plasmáticos de P4 é de extrema importância, principalmente nas primeiras 56 horas após a administração do agente luteolítico, já que os valores de progesterona devem estar abaixo 0,5 ng/mL para que a vaca tenha maior chance de ovular o folículo dominante (FD). Com a redução acentuada da progesterona, a pulsatilidade de LH intensifica, possibilitando um aumento na produção de E2 pelo FD e, consequentemente, aumenta a manifestação de cio.

Figura 1. Concentração (ng/mL) plasmática de progesterona (P4) um dia antes até 90 h após o tratamento com cloprostenol sódico (500µg) comparado com dinoprost trometamina (25mg) de vacas de leite lactantes que apresentaram luteólise completa em até 56 h após o tratamento (Adaptado de Martins et al., 2011).

Corroborando com esses resultados, outro estudo realizado com rebanho de leite comercial verificou que vacas tratadas com cloprostenol sódico apresentaram maior taxa de detecção de cio, concepção e prenhez comparadas às fêmeas tratadas com dinoprost (Tabela 1; Pursley et al., 2012). Esse resultado pode estar relacionado a uma luteólise incompleta ou mais tardia provocada pelo Dinoprost. Tal fato foi verificado em 5 a 20% das vacas de leite sincronizadas com protocolos Presynch/Ovsynch após a administração da fonte de PGF2α. Por esse trabalho fica evidenciado que a maior potencia do Cloprostenol é benéfica às vacas de leite em protocolos reprodutivos e apresenta melhores resultados quando comparado ao Dinoprost. Com o objetivo de minimizar os problemas devido a luteólise incompleta, alguns trabalhos vêm sendo desenvolvidos utilizando duas doses de dinoprost trometamina em protocolos de IATF. Os primeiros resultados mostram melhora nas taxas de prenhez dos protocolos e uma possível explicação seria que as duas doses de PGFteriam um efeito mais potente comparada a uma única dose devido a meia vida curta desse fármaco em específico. Contudo, mais estudos devem ser desenvolvidos e tal resultado não deve ser estendido para o cloprostenol, pois apesar de serem prostaglandinas, ambos os fármacos apresentam características diferentes. Assim, estudos semelhantes serão desenvolvidos com o cloprostenol sódico para avaliar os possíveis resultados. 

Tabela 1. Efeito de 500 µg de cloprostenol sódico versus 25 mg de dinoprost trometamina sobre as taxas de detecção de cio, concepção e prenhez em vacas de leite de alta produção de 1º, 2º e 3º parto, inseminadas artificialmente nos dias 3 e 4 durante um intervalo de 5 dias após o tratamento com duas aplicações, com intervalo de 14 dias, de cloprostenol sódico ou dinoprost. (Adaptado de Pursley et al., 2012)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

BRUSVEEN, D.J.; SOUZA, A.H.; WILTBANK, MC. Effects of additional prostaglandin F2alpha and estradiol-17beta during Ovsynch in lactating dairy cows. Journal of Dairy Science, v.92, p.1412–1422, 2009.

GÜMEN, A.; GUENTHER, J.N.; WILTBANK, M.C. Follicular size and response to Ovsynch versus detection of estrus in anovular and ovular lactating dairy cows. Journal of Dairy Science, v.86, p.3184–3194, 2003.

MARTINS, J.P.; POLICELLI, R.K.; PURSLEY, J.R.; Luteolytic effects of cloprostenol sodium in lactating dairy cows treated with G6G/Ovsynch. Journal of Dairy Science, v.94, p.2806–2814, 2011.

MCCRACKEN, J.A.; CUSTER, E.E.; LAMSA, J.C. Luteolysis: a neuroendocrine-mediated event. Physiological Reviews, v.79, p.263–323, 1999.

MOREIRA, F.; RISCO, C.A.; PIRES, M.F.; AMBROSE, J.D; DROST, M.; THATCHER, W.W. Use of bovine somatotropin in lactating dairy cows receiving timed artificial insemination. Journal of Dairy Science, v.83, p.1237–1247, 2000.

PURSLEY, J.R.; MARTINS, J.P.N.; WRIGHT, C.; STEWART, N.D. Compared to dinoprost tromethamine, cloprostenol sodium increased rates of estrus detection, conception and pregnancy in lactating dairy cows on a large commercial dairy. Theriogenoloy, v. 78, p.823-829, 2012.

 

Equipe reprodução animal

Importância da capacitação profissional para alcançar o sucesso na IA/IATF.

A pecuária brasileira ocupa hoje uma posição de destaque na economia do país. Atualmente, o Brasil é o primeiro exportador de carne in natura, sendo seguido pela Austrália e Estados Unidos (ANUALPEC, 2011). Segundo análises da CNA, o PIB da pecuária cresceu 21% no ano de 2011, em relação a 2010.

No entanto, a pecuária brasileira ainda apresenta uma baixa eficiência reprodutiva, ficando próximo a 65%, ou seja, para cada 100 fêmeas em idade reprodutiva, nascem por ano  aproximadamente 65 bezerros (0,65 bezerros/vaca/ano; ANUALPEC, 2011).

Através da Inseminação Artificial (IA) convencional, é possível promover o melhoramento genético e aumentar a produtividade dos rebanhos, uma vez que possibilita usar sêmen de touros melhoradores. Atualmente, muitos países inseminam quase a totalidade de seus rebanhos bovinos. Calcula-se que mais de 106 milhões de fêmeas sejam anualmente inseminadas em todo o mundo (Chupin & Thibier, 1995). No entanto, no Brasil, apesar de a venda de sêmen ter crescido 50% nos últimos 10 anos, estima-se que tenhamos pouco mais de 9,4 milhões de vacas inseminadas, representando em torno de 13% do total do rebanho (ANUALPEC, 2011). Estes dados nos mostram que ainda existe a necessidade de se investir em biotecnologias que visam eficiência reprodutiva e melhoramento genético a fim de promover o crescimento da pecuária nacional.

Com o advento da IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) tornou-se possível obter melhoramento genético associado à eficiência reprodutiva. Mas, o sucesso da técnica depende de um controle preciso do crescimento folicular (Baruselli et al., 2006) e da disponibilidade de mão de obra qualificada para a realização das inseminações (Russi et al., 2009).

De acordo com Russi et al. (2009), a falta de pessoas capacitadas é um dos fatores limitantes para a expansão da IA no Brasil. Além disso, os autores destacaram que um manejo inadequado também pode acarretar resultados indesejados. Dobson e Smith (2000) mostraram que um manejo aversivo, que gera estresse, pode alterar a resposta aos tratamentos recebidos durante os protocolos de IATF e até mesmo resultar em perdas embrionárias.

É sabido que o inseminador apresenta um papel fundamental na eficiência da IA/IATF. Imperfeições na manipulação do sêmen e/ou na execução da técnica são geralmente apontados como fatores que comprometem os resultados de prenhez. Dentre os fatores que interferem no desempenho dos inseminadores, Russi et al. (2009) destacaram os seguintes: estado emocional e personalidade do inseminador. Foi relatado que o estado emocional do inseminador influenciou a taxa de retorno ao cio após as inseminações. Os indivíduos com menos preocupações e mais tranqüilos obtêm os melhores resultados. Além disso, também é preciso considerar a confiança que o inseminador tem no sêmen que está utilizado, o comprometimento que o mesmo possui com a fazenda, o conhecimento e a confiança na técnica de IA/IATF e a possibilidade de participar de treinamentos e reciclagens.

Um estudo desenvolvido por Fernandes Jr. (2001) mostrou que as variáveis habilidade, curso de IA e reciclagens geram diferenças significativas entre os inseminadores, medidas pela taxa de prenhez. Tal estudo reforça a necessidade de revisar todo o processo de IA periodicamente, a fim de aumentar a habilidade e a autoconfiança do inseminador. Outra consideração importante feita por esse mesmo autor é em relação ao comprometimento afetivo com o trabalho. Inseminadores com maior comprometimento afetivo obtiveram melhores taxas de gestação (85%) que aqueles que apresentaram comprometimento apenas por razões econômicas (68%, P<0,05).

Outro fator que pode afetar os resultados e que deve ser sempre levado em consideração é o cansaço do inseminador. Dados revisados por Russi et al. (2009) mostraram que algumas manifestações indicativas de cansaço ocorrem antes mesmo de o inseminador solicitar sua substituição, podendo resultar em queda no rendimento do profissional. Reforçando a importância de realizar o treinamento do maior número possível de pessoas dentro das propriedades que realizam IA/IATF.

Adicionalmente, foi observado que conhecer e acreditar na técnica com a qual se trabalha também pode ter influência positiva nos resultados. Os inseminadores que conheciam/acreditavam na técnica de IATF obtiveram melhores resultados do que os que não acreditavam (40% vs 36% de prenhez), podendo comprometer os resultados dos programas de IA (Russi, 2008).

Frente a isso, torna-se cada vez mais importante o treinamento/reciclagem dos inseminadores e a disseminação da técnica de IA/IATF (Russi et al., 2009). Pois além de aumentar a habilidade dos funcionários, ambos são de extrema importância para aumentar a confiança e a auto-estima dos mesmos. Atitudes que valorizam a equipe envolvida podem resultar em melhoras significativas dentro da propriedade, principalmente, quando se trata de IA/IATF.


Referências

Anuário da Pecuária Brasileira (ANUALPEC), 2011.

Baruselli PS, Reis EL, Marques MO, Nasser LF, Bo GA. The use of hormonal treatments to improve reproductive performance of anestrous beef cattle in tropical climates. Animal Reproduction Science, v.82-83, p.479-486, 2004.

Chupin, D.; Thibier, M. Survey of the present status of the use of artificial insemination in developed countries. World Animal Review, v.82, p.58-68,  1995.

CNA http://www.beefpoint.com.br/cadeia-produtiva/giro-do-boi/cna-faturamento-da-pecuaria-cresceu-21-em-2011-para-r1183-bi-77565/ Acesso em: 02 de fevereiro de 2012.

Fernandes Jr. JA. Inseminação artificial em gado de corte: impacto da equipe de inseminadores nos resultados obtidos. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Jaboticabal, 87f, 2001.

Russi, L.S.; Costa e Silva, E.V.; Zúccari, C.E.S. Importância da capacitação de recursos humanos em programas de inseminação artificial. Revista Brasileira de Reprodução Animal. v.33, p. 20-25, 2009.

Russi, LS. Recursos humanos na inseminação artificial em bovinos de corte. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Ciência Animal)-Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Campo Grande, 74f, 2008.

Presynch: é possível deixá-lo mais prático?

No artigo passado apresentamos o efeito do protocolo de pré-sincronização (Presynch) na taxa geral de prenhez de vacas submetidas ao tratamento com protocolo Ovsynch. Neste estudo foi possível notar que, quando o Presynch foi utilizado, maior número de animais iniciaram o protocolo Ovsynch com alto nível de progesterona (> 2.5 ng/ml), mostrando a eficiência da pré-sincronização. Sabe-se que os animais que apresentam alto nível de progesterona no inicio do protocolo são animais que apresentam CL neste dia e que o nível de progesterona pode ter efeito no desenvolvimento saudável do folículo.

Ao empregar um programa reprodutivo com pré-sincronização, ao menos dois manejos extras são adicionados para cada animal (duas aplicações de PGF2α). Porém, o aumento da taxa de prenhez observado com o uso da pré-sincronização pode justificar o trabalho necessário para administrar os tratamentos adicionais de PGF2α, e é a principal vantagem de sua aplicação na primeira IATF pós-parto.

Uma vez demonstrada a importância da utilização do Presynch, questionamentos acerca da praticidade de sua aplicação na rotina das propriedades passaram a ser levantados e ajustes desse protocolo foram propostos. Um ponto questionado foi a necessidade de manter-se exatamente o intervalo de 12 dias entre segunda PGF2α do Presynch e a primeira aplicação de GnRH do Ovsynch. Desse questionamento surgiu a proposta de prolongar esse intervalo para 14 dias (dois dias a mais), pois assim as 4 primeiras injeções dos protocolos (as duas PGF2α do Presynch e o primeiro GnRH e a PGF2α do Ovsynch) poderiam ser agendadas para o mesmo dia da semana, durante as semanas subsequentes. Esta é uma estratégia muito interessante, pois se estabelecendo dias da semana fixos para determinados tratamentos, minimiza-se o confundimento, facilita-se o manejo e otimiza-se os resultados. Esse novo protocolo permitiria que os produtores de leite pudessem montar um calendário semanal de sincronização, no qual grupos de vacas sempre fossem direcionados para iniciar o protocolo no mesmo dia da semana e, à medida que novos grupos entrassem nesse manejo, os dias de tratamento e hormônios utilizados nesses dias se manteriam os mesmos.

Ainda, este mesmo dia da semana pode ser instituído como o dia de diagnóstico de gestação, quando ele ocorre aos 32 (por ultrassonografia) ou 39 dias (por palpação retal) após a IA. Desta forma, os produtores ou gerentes das fazendas poderiam utilizar este dia para acompanhar o médico veterinário durante os diagnósticos de gestação e a administração de 80% dos fármacos (4 das 5 injeções do protocolo Presynch-Ovsynch ocorreriam no mesmo dia da semana). Esse esquema é muito utilizado em fazendas norte-americanas, uma vez que os proprietários costumam acompanhar o diagnóstico de gestação e aplicar eles mesmos a maior parte dos medicamentos. Outra possível vantagem de se manter a maior parte dos tratamentos e o diagnóstico de gestação em um mesmo dia da semana é a possibilidade de se instituir programas de ressincronização associados.

O esquema de calendário semanal e a organização da propriedade de acordo com o período pós-parto pode ser uma alternativa de manejo bastante apreciada (Tabela 1).

Tabela 1 – Exemplo de diagrama esquemático de trabalho em programas de semanais de sincronização da ovulação para inseminação artificial em tempo fixo utilizando a associação dos protocolos Presynch 14 dias e Ovsynch.

Com base nessa prerrogativa, iremos apresentar os resultados do trabalho de Navanukraw e colaboradores (2004). Neste estudo foram utilizadas 269 vacas Holandesas distribuídas aleatoriamente para um dos dois tratamentos propostos: tratamento direto com Ovsynch (Ovsynch) vs Ovsynch precedido por Presynch 14 dias (Presynch 14d; Figura 1). Na distribuição dos animais foram respeitados a paridade (primíparas vs multíparas) e número de dias em lactação (DEL, 60-100 ou > 100 DEL), sendo que a média de DEL no início do tratamento foi de 99,6 ± 6,3 e 89,5 ± 5,8 dias para as vacas dos grupo Ovsynch e Presynch 14d, respectivamente.

Figura 1 – Diagrama esquemático dos protocolos de sincronização (Adaptado de Navanukraw et al., 2004).

Neste estudo foram utilizadas tanto vacas de primeiro serviço, como as diagnosticadas vazias após serviço prévio. Os autores propõem que protocolos hormonais para IATF devem ser de prática implementação na operação do dia-a-dia de uma fazenda de gado leiteiro, caso contrário o mesmo poderá falhar devido à falta da aplicação de algum fármaco.

Figura 2 – Taxa de prenhez de vacas Holandesas de acordo com o protocolo de sincronização da ovulação utilizado: Ovsynch ou Presynch 14d seguido de Ovsynch (a≠b, P<0,05; adaptado de Navanukraw et al., 2004).

O resultado deste experimento (Figura 2) suporta que o uso do protocolo Presynch modificado (Presynch 14d) aumenta a taxa de prenhez de vacas em lactação recebendo IATF em comparação com Ovsynch desacompanhado de pré-sincronização. Um possível mecanismo pelo qual o Presynch 14d pode melhorar a taxa de prenhez é por pré-sincronizar o dia do ciclo estral de modo que as vacas estejam na primeira injeção de Ovsynch em uma fase específica do ciclo, conforme explicado no artigo do mês passado. Ainda, acredita-se que o protocolo Presynch aumentada a taxa de sincronização, e este seja outro mecanismo que também deva contribuir para o efeito do Presynch.

Assim, podemos concluir que é possível alterar o protocolo Presynch original (12d) para poder adequá-lo ao calendário semanal de trabalho, sem perder o acréscimo na taxa de prenhez que este protocolo proporciona.

 

Bibliografia:
C. Navanukraw, D. A. Redmer, L. P. Reynolds, J. D. Kirsch, A. T. Grazul-Bilska,1 and P. M. Fricke2 A Modified Presynchronization Protocol Improves Fertility to Timed Artificial Insemination in Lactating Dairy Cows. J. Dairy Sci. 87:1551–1557

Por Henderson Ayres e Roberta Machado Ferreira - Departamento de Reprodução Animal, FMVZ-USP

Protocolo Ovsynch – suas bases de desenvolvimento e aperfeiçoamento do momento da IA

Nos artigos anteriores –“Parâmetros importantes na avaliação da eficiência reprodutiva de rebanhos leiteiros – PARTE I e PARTE II” foram apresentados os principais índices utilizados na avaliação da eficiência reprodutiva. Neles, evidenciou-se que as taxas de concepção e prenhez não são os únicos, nem os mais importantes parâmetros a serem avaliados, uma vez que refletem apenas o resultado parcial da reprodução, não sendo capazes de mostrar sozinhos onde estão possíveis falhas e pontos a serem melhorados.

Os avanços na genética e no manejo possibilitaram o crescente aumento do número de vacas por rebanho. Entretanto, com esse aumento foi criado um novo problema para o manejo reprodutivo das vacas leiteiras: a detecção eficiente do cio. Os métodos tradicionais de detecção de estro são ineficientes quando aplicados em grandes rebanhos leiteiros por haver uma alta relação vacas/funcionários, resultando principalmente na diminuição da precisão e eficiência de detecção de estro. Sabe-se que a eficiência de detecção de estro (e consequentemente a taxa de serviço) é um dos mais importantes fatores que limitam o desempenho reprodutivo de vacas leiteiras. Se este parâmetro estiver aquém do desejado não é possível alcançar os almejados altos índices reprodutivos.

Uma maneira de contornar o declínio no desempenho reprodutivo de rebanhos leiteiros é a aplicação de métodos para controlar a dinâmica folicular e lútea. Aplicações de protocolos reprodutivos permitem a sincronização do desenvolvimento folicular, a regressão luteal e a sincronização do momento da ovulação, sem a necessidade da detecção do estro. Em alguns estudos, as taxas de concepção após inseminação artificial em tempo fixo (IATF) são menores do que aquelas encontradas com a IA tradicional. Porém, as taxas de prenhez geralmente são maiores após IATF devido ao fato de 100% das vacas serem inseminadas (100% de taxa de serviço), fato que não ocorre na IA tradicional. Assim, neste artigo iremos falar sobre o protocolo Ovsynch, um dos primeiros protocolos criados e atualmente o mais utilizado nos rebanhos leiteiros dos Estados Unidos e da Europa devido à restrição na utilização de estrógenos nesses lugares.

O primeiro protocolo que realmente possibilitou o uso da IATF com satisfatória taxa de prenhez foi o Ovsynch. Ele foi desenvolvido na Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, nos anos 90. A criação surgiu do desejo em desenvolver um método para sincronizar o momento da ovulação em bovinos utilizando GnRH e PGF2α, uma vez que, até então, somente eram utilizados esquemas de sincronização administrando PGF2α. A utilização da PGF2α por si só possibilita aumentar as taxas de estro e de IA em comparação com sistemas que utilizam apenas detecção do estro diariamente. No entanto, o estro não é sincronizado com tanta precisão quando se utiliza apenas PGF2α, já que os animais podem entrar em estro durante um período de aproximadamente 5 dias. Além disso, esse método não dispensa a observação de cio, o que foi comprovado por um estudo no qual vacas inseminadas entre 72-80 h após a segunda injeção de PGF2α (sem observação de cio) tiveram taxa de concepção menor do que de vacas submetidas apenas à detecção de estro. Assim, fica evidente que a utilização da PGF2α isoladamente (uma ou duas doses) não permite a realização da IATF com satisfatórios resultados.

Com o intuito de melhorar estes índices, pesquisadores passaram a utilizar a administração de GnRH 6 dias antes da injeção de PGF2α e notaram aumento do número de animais sincronizados e diminuição da variabilidade no momento de estro em vacas e novilhas. Esta redução na variabilidade do momento de estro deve ocorrer devido ao início de uma nova onda folicular após a administração do GnRH, resultando na formação de um novo folículo dominante, presente no momento da administração da PGF2α. Com base nestes dados, Pursley e colaboradores (1995) realizaram experimentos para testar a utilização de GnRH e PGF2α e determinar se a ovulação em vacas leiteiras poderia ser sincronizada em um período preciso de tempo.

O protocolo consistiu de uma primeira administração intramuscular de GnRH em fase aleatória do ciclo estral. Sete dias mais tarde, administrou-se PGF2α para regredir todos os corpos lúteos (CL) e então, quarenta e oito horas depois, as vacas receberam a segunda administração GnRH, a fim de provocar a ovulação do novo folículo dominante. Postulou-se, que a primeira injeção de GnRH provocaria a ovulação de um folículo dominante e consequente início de uma nova onda folicular, ou coincidiria com uma fase do ciclo estral em que uma nova onda folicular estaria iniciando espontaneamente. Se houvesse ovulação após a administração inicial de GnRH, um CL seria formado e o intervalo de 7 dias seria suficiente para o amadurecimento desse CL e sua adequada resposta à PGF2α. Além disso, a escolha do intervalo de 7 dias levou em consideração que a elaboração de um programa de IATF deveria ser viável e compatível com o calendário semanal de uma fazenda produtora de leite, ou seja, a facilidade de se realizar no mesmo dia da semana duas injeções do protocolo (primeiro GnRH de algumas vacas e PGF2α de outras) economizando um dia de trabalhado com os animais. Já a administração da segunda dose de GnRH seria efetuada no momento em que um pré-ovulatório ser sensível ao aumento induzido de hormônio luteinizante (LH).

Como postulado pelos pesquisadores, a primeira administração de GnRH foi capaz de ovular grandes folículos funcionais (> 10 mm) e induzir a emergência de uma nova onda de crescimento folicular, aumentando a probabilidade de um novo folículo grande estar presente no momento da administração da PGF2α. Particularmente neste estudo, uma percentagem surpreendentemente elevada de vacas em lactação (90%) ovularam após a primeira injeção de GnRH. Em contraste, apenas cerca de 50% das novilhas ovularam em resposta a esta injeção. Assim, os pesquisadores sugerem que este protocolo não parece ser tão eficaz para a sincronização de novilhas em comparação a vacas leiteiras.

A administração da segunda injeção de GnRH proporcionou a ovulação sincronizada dentro de um período de 8 h (de 26 a 32 horas após o segundo GnRH) em todas as vacas em lactação e novilhas nas quais houve regressão do CL em resposta à PGF2α. Em outros experimentos realizados pelo mesmo grupo que desenvolveu o Ovsynch, foi notado que quando os animais não recebem a segunda dose de GnRH  o período de ovulação é muito grande e disperso (36 h; sendo que as ovulações ocorreram de 84-120 h após PGF2α). Assim, fica evidente a necessidade de se utilizar um indutor de ovulação (no caso o GnRH) ao final do protocolo para melhor sincronizar o momento das ovulações.

Complementarmente, outro experimento foi desenhado para poder determinar o melhor momento para a realização da IA após a administração do segundo GnRH. Nele, vacas foram inseminadas 0, 8, 16, 24 ou 32 h após a segunda injeção de GnRH (sabendo que a ovulação ocorre entre 24 e 32 h após GnRH). Foi observado um efeito quadrático (Figura 1) do tempo de IA na taxa de concepção através da regressão logística, ou seja, verificou-se que a taxa de concepção aumentou até um limite a partir do qual começou a diminuir. Isto sugere que pode haver um momento ideal da IA e que este deve ser em torno de 16 horas após a segunda aplicação de GnRH. Assim, parece haver um período de tempo considerável após o pico de LH (~ 24 h), no qual as vacas podem ser inseminadas com aceitável taxa de concepção, mas um momento ótimo ao redor de 16 horas após o pico de LH parece existir.

 

Fig. 1 – Taxa de concepção de vacas Holandesas inseminadas em momentos específicos em relação à administração da segunda dose de GnRH no protocolo Ovsynch (adaptado Pursley et al., 1998).

 

Após a leitura desse artigo, é importante ter em mente que, para o sucesso de programas sistemáticos de sincronização da ovulação três etapas são importantíssimas: (1) submissão de todas as vacas de primeiro serviço à inseminação artificial em tempo fixo (IATF) no final do período voluntário de espera, (2) identificação de não-vacas prenhes precocemente após à IATF e (3) rápida ressincronização e/ou reinseminação de vacas não gestantes a IATF no segundo e/ou mais serviços. Assim, a adoção de programas de sincronização hormonal tornou-se uma ferramenta valiosa para os produtores de leite melhorarem as taxas de concepção a AI da fazenda, principalmente na etapa 1. Para obter o máximo de eficiência nas etapas 2 e 3, pode-se iniciar a ressincronização dos animais de 7 a 9 dias (dependendo do protocolo) antes do momento do diagnóstico de gestação (ou no dia do diagnóstico, apenas nas vacas vazias) e, ainda, manter um bom sistema de observação de cio, pois esta é uma ferramenta que não deve ser totalmente esquecida em uma propriedade de leite.

Apesar do impacto global do protocolo Ovsynch ser positivo, 10 a 30% das vacas tratadas com Ovsynch não têm a ovulação sincronizada em resposta ao último GnRH. Sabe-se que a resposta ovulatória ao primeiro GnRH do Ovsynch é o fator determinante para uma sincronização bem-sucedida. Esse evento é fundamental para a coordenação de um folículo dominante funcional no momento da PGF2α e do GnRH final. Assim, tratamentos que possibilitem a préssincronização dos animais é uma técnica que pode melhora ainda mais os resultados do protocolo.

Bibliografia:
-Pursley, J. R., M. O. Mee, and M. C. Wiltbank. 1995. Synchronization of ovulation in dairy cows using PGF2a and GnRH. Theriogenology 44:915–923.
-Pursley, J. R.,  Silcox, R. W. and Wiltbank, M. C. 1998. Effect of Time of Artificial Insemination on Pregnancy Rates, Calving Rates, Pregnancy Loss, and Gender Ratio After Synchronization of Ovulation in Lactating Dairy Cows. J. Dairy Sci. 81:2139–2144.

 

Por Henderson Ayres e Roberta Machado Ferreira, Departamento de Reprodução Animal – FMVZ-USP.